Fora da Torre

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KayNielsenRapunzelHistórias de donzelas trancadas em torres podem ser encontradas na cultura popular do mundo inteiro. Da mesma forma, a obsessão com o cabelo de uma mulher tem causado sua glória ou declínio, desde sempre. Mas a mais famosa das donzelas de cabelo longo de todos os tempos teve sua origem na Literatura escrita, e não na fala dos camponeses.

A Rapunzel que conhecemos hoje foi publicada pelos Irmãos Grimm em 1857, mas acredita-se que tenha sido inspirada por uma história com o mesmo nome publicada por Friederich Schulz em 1790 que, por sua vez, foi inspirada em uma história francesa, bem mais antiga – 1698 – , chamada “Persinette”, de autoria de Charlotte-Rose de La Force. A historia de La Force, entretanto, foi influenciada por um dos contos do Pentamerone, de Giambattista Basile, publicado em 1634. O conto se chama “Petrosinella”. No espaço de dois séculos e seguindo pelos séculos XIX, XX e XXI, os temas recorrentes nesse conto ainda nos movem e carregam um sentido relevante em nossas vidas.

O desejo desenfreado da mãe por um alimento, como uma tentativa desesperada de não perder a atenção e o cuidado do marido que, por sua vez, cede ao maior absurdo de todos ao abrir mão de um filho para não desagradar a esposa, nos dá uma ideia de que tipo de pais Rapunzel terá. Talvez ser trocada por um molho de alface tenha sido melhor para a menina do que ser criada na invisibilidade e na negligência.

Tanto na versão dos Irmãos Grimm quanto nas anteriores, durante a gravidez a mãe é acometida por um desejo incontrolável de comer as verduras cultivadas na horta vizinha onde habita uma bruxa. Em vez de pedir à dona da horta um pouco de verduras, o pai as rouba. Pego em flagrante pela bruxa, a mesma impõe-lhe uma condição para não puni-lo como um ladrão comum : as verduras em troca da criança que irá nascer. Surpreendentemente, o pai aceita e leva as verduras para casa. A esposa fica sabendo da barganha, mas como sua vontade é mais importante que tudo, ela aceita a troca. A criança nasce e é entregue à bruxa, que recebe a menina e a cria como filha. Ao contrário da mãe biológica que a troca por um ramo de salsa, ou alface, não se arrepende e sequer luta para recuperá-la, a bruxa a quer para si, como uma filha desejada.

Quando Rapunzel completa doze anos e, como não poderia deixar de ser, aos olhos da mãe/bruxa é a criatura mais linda da face da terra, a mesma manda construir uma torre dentro da qual tranca a menina, escondida do mundo e de tudo que possa levá-la para longe do ninho que a acolheu. A feiticeira comete o erro tão comum de algumas mães de meninas na puberdade: tomadas de surpresa pelo surgimento de uma mulher mais jovem na casa, tentam perpetuar o tempo em que tinham suas garotinhas, impedindo-as de vivenciar o mundo real.

Rapunzel também não pode cortar seu cabelo e o mesmo, ao longo dos anos, atinge um comprimento que permite à bruxa usá-lo para entrar na torre, já que não há portas. Fica assim determinado, também , o controle da mãe sobre o cabelo da filha : esta não pode cortá-lo, sob o risco de perder a presença e o alimento/carinho da mãe e ficar isolada na torre para sempre. O cordão umbilical artificial criado pela bruxa garante, ou assim ela pensa, que Rapunzel será sua para sempre.

Curioso pensar como o cabelo pode servir de instrumento de opressão ou libertação através dos tempos. Em épocas distintas podia representar sensualidade e beleza, mas também maldade e conluio com as forças do mal. Um cabelo longo, na imaginação Puritana, tomava a forma de uma serpente, uma rede para “prender” os desavisados, ou até uma corda para estrangulá-los. Já na época Vitoriana , havia um conjunto de regras para designar às mulheres como deveriam usar o cabelo: solto, apenas na infância. Ao atingir a puberdade, as meninas deveriam começar a prendê-lo. Uma mulher casada, então, só poderia ser vista de cabelo solto pelo marido. Semelhante às regras do véu observadas na cultura Muçulmana e em vigor, com maior ou menor rigidez, até hoje.

Na ilusão de que Rapunzel permanecerá longe e livre de qualquer interferência do mundo exterior pelo fato de estar trancafiada em uma torre, a bruxa esquece da principal força motriz da juventude: a curiosidade.

Perdido de seu grupo de caça e passando perto da torre no momento em que a feiticeira entoava o tão familiar Rapunzel, jogue suas tranças, estava um príncipe. Ao observar que as tranças pertenciam a uma jovem, o moço espera a bruxa ir embora e, imitando sua voz, engana Rapunzel e sobe na torre.

O resto já se sabe: a moça inicialmente fica assustada, mas se agrada da companhia do príncipe, a tal ponto que ele passa a visitá-la diariamente. Um dia Rapunzel se engana e diz à bruxa que ela está mais “pesada que o príncipe”. A velha se sente traída – pensei que tinha te isolado do mundo, mas tu me traíste – e expulsa a filha da torre, não sem antes cortar-lhe os cabelos. Quanto ao rapaz, a bruxa o deixa pensar que está subindo pelas tranças de Rapunzel, mas ela é quem o espera no alto da torre, para jogá-lo de volta lá de cima. O príncipe cai de rosto em um espinheiro e fica cego, passando a vagar pelo mundo chorando seu amor perdido. Já Rapunzel tenta sobreviver miseravelmente. Um dia o acaso os junta e, ao aproximar-se do príncipe que está deitado no chão, duas lágrimas da moça caem em seus olhos e ele volta a ver. Em algumas versões eles vão morar juntos e criam seus filhos e, em outras, como a dos Grimm, eles voltam para o reino do príncipe e são recebidos com festejos.

A historia de Rapunzel nos é familiar em muitos aspectos porque seus temas ainda são universais e atemporais. Todos, embora alguns não admitam, já cobiçamos alguma coisa mesmo sabendo que o preço poderia ser alto demais, todos já nos sentimos aprisionados em função das exigências de nossos pais, todos já nos deixamos levar pelo amor, para no final nos encontrarmos cegos e machucados. Todos temos esperança de um final feliz.

Há também aqueles que foram abandonados pelos pais, e encontraram pais adotivos que os amaram e também aqueles que tem pais, ou mães super-protetoras e controladoras.

No final, como Rapunzel bem soube, temos que deixar a torre, quer os outros queiram ou não. Ninguém pode permanecer na infância para sempre. O mundo adulto, com todos os seus obstáculos, mas também com suas possibilidades, está à nossa espera.

A Bruxa poderia ter matado o príncipe, ou Rapunzel, mas os poupou, mesmo que a contragosto, para que crescessem. Às vezes temos que permitir às bruxas que habitam nosso interior o acesso à torre, para que nos ajudem a sair dela, mesmo que temporariamente cegos ou com os cabelos cortados.

Assim é a vida.

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