Tão diferente, tão semelhante

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Diz-me a quem odeias e te direi quem és. Uma pequena variação do ditado tradicional, mas que traz um fundo de verdade.

Assim como no amor, no ódio há também uma certa identificação com o objeto odiado. Há alguma coisa de mim que não gosto, ou não aceito, naquele outro a quem odeio. A perseguição, o linchamento e a expressão verbal (e por vezes física) da vontade de que o outro morra e desapareça da face da terra, eliminaria – na visão de quem odeia- aquilo que tanto lembra o que se quer esconder.

 

Nunca esquecerei a primeira vez que entrei em contato com as histórias de Kate Chopin e, mais especificamente, Desirée’s Baby. Foi amor à primeira vista pela obra dessa mulher, mãe de cinco filhos, que desafiou com a palavra as injustiças, o preconceito e o racismo da sociedade sulista norte-americana do final do século XIX.

 

Desirée Valmondé é a filha adotiva do Senhor e Senhora Valmondé. Quando bebê foi encontrada pelo Senhor Valmondé nos portões de sua propriedade. O casal, que desejava muito um filho, criou Desirée (desejada, em francês) com muito amor e carinho. Já moça, Desirée é cortejada e casa-se com o filho de outra família rica de Louisianna, Armand. Ela e Armand tem um filho. Logo no início, Armand está muito feliz com a criança, mas assim que começa a perceber que o bebê tem traços de ascendência negra, isola-se da esposa e do filho e passa a hostilizá-los, insinuando que a “culpa” da criança não ser pura é de Desirée, já que não se sabe nada de sua origem, apesar de sua tez clara e dos cabelos castanho-claros – como Chopin a descreve.

A situação chega ao ponto em que a Senhora Valmondé chama a filha de volta para casa, pois quer protegê-la dos maus tratos do marido. Desirée parte então, com o filho nos braços, não para a casa de seus pais e sim para o fundo das águas do bayou. Logo em seguida Armand manda queimar todos os seus pertences em uma grande fogueira na frente da casa. A história termina com Armand lendo uma carta de sua própria mãe – que ele conheceu brevemente- a seu pai, lamentando não poder estar junto do filho, pois isso causaria muitos problemas à família, já que ela era negra.

 

Tanto na Louisianna rural do século XIX, quanto nos dias de hoje, os problemas são muito parecidos; a hipocrisia é a mesma. Ao revelar a mestiçagem de Armand no final da história, Chopin retrata a maneira como as coisas acontecem: ele não vai mudar, apenas seguir escondendo aquilo que odeia em si mesmo e oprimindo quem o fizer lembrar-se disso.

 

São histórias como essas que podem nos fazer pensar no que está realmente por trás do machismo, do racismo, da homofobia, da intolerância religiosa ou em relação aos ateus, e da perpetuação da desigualdade social. São histórias assim que nos fazem analisar nossa própria realidade e nossas ações. São histórias assim, atemporais e tecidas na condição humana, que são capazes de nos dar estofo e força de mudar.

 

Uma história assim, escrita por uma mulher comum, mas cheia de coragem.

kate-chopin

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