Uma Chance para a Madrasta

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stepmother

 

Em muitos contos de fadas, dos mais tradicionais como Cinderela e Branca de Neve, até os menos conhecidos, como Pele de Asno, há uma ausência extremamente incômoda: a da mãe da protagonista. Cinderela, Branca de Neve, a princesa de Pele de Asno, Bela, de A Bela e a Fera, entre muitas outras, são meninas órfãs de mãe. O desaparecimento das mães parece um evento normal na história: as razões das mortes quase nunca são ditas e algumas delas já estão mortas até mesmo antes da história começar.

Entretanto, nem sempre foi assim. Nas versões mais antigas dos contos eram as mães que perseguiam, abandonavam e/ou maltratavam seus próprios filhos. Mas folcloristas mais românticos, como os Irmãos Grimm, decidiram que estava na hora de endeusar as mães e idealizar sua imagem e deixar a “tarefa suja” para outra personagem. Surge então a Madrasta Má.

Na época dos Grimm, no auge do Romantismo Alemão, as mulheres, especialmente as mães, deveriam ser as guardiãs da moralidade. Ainda hoje, o Dia das Mães, os cartões e presentes e toda a campanha massiva da mídia revelam o quanto o papel das mulheres ainda é idealizado sentimentalmente. O problema é que essa adoração toda tem o seu lado B: a decepção e a amargura são muito maiores quando as coisas não saem como o planejado. E na maioria das vezes, elas não saem.

Não podemos esperar inocentemente que as histórias, sejam elas dos Grimm ou as adaptadas de Disney, sejam depósitos de verdades universais sem, ao menos, considerar o pano de fundo histórico e social da época em que foram criadas ou registradas. Na linha do que diz a historiadora e crítica Marina Warner, as mães más ou madrastas não devem ser tratadas como figuras arquetípicas sem antes dar-lhes a chance de se explicar historicamente.

Histórias como Cinderela, por exemplo, mostram as rivalidades entre as mulheres da família na Europa medieval e nos primeiros tempos da era moderna. Em uma época de alta incidência de mulheres morrendo jovens, frequentemente no parto, a nova esposa tinha que ganhar espaço dentro da família para si mesma e para os filhos que, porventura, trouxesse para o casamento.

Depender dos favores dos homens era outro fator para a competição entre as mulheres. Acirrava, e muito, a rivalidade entre irmãs e também entre as mulheres mais velhas e as mais novas, sendo o grupo mais velho o mais vulnerável. Não havia muito mais para uma mulher que chegasse à idade madura, quando já não podia mais ter filhos, do que tornar-se ou avó boazinha, ou bruxa maléfica e depender das graças das mulheres mais jovens e do dono da casa.

A madrasta era vista então como aquela que, além de tentar tomar o lugar da verdadeira mãe, “santificada” pela morte, também tentava tirar os lugar dos filhos “legítimos” do marido. Ninguém lembrava, nos contos de fadas, de pensar como que ela fora parar ali, em primeiro lugar. O que ninguém mencionava era de que ela estava tentando, assim como todos, sobreviver e garantir seu futuro, já que uma mulher sem marido naquela época não valia nada, em nenhum sentido.

Forma-se então todo um imaginário acerca de uma figura (feminina, como sempre) que, em não podendo ocupar o trono dourado de mãe mártir, deveria ocupar o lugar de depositária da maldade e dos infortúnios que se abatiam sobre os outros membros da casa.

Esse maniqueísmo acerca da figura materna, que deposita todo o mal em outra mulher “substituta” e todo o bem na mãe, traz sérias consequências, ainda hoje, aos relacionamentos familiares e sociais, em uma época de famílias múltiplas, de divórcios, de vários casamentos e de pais e mães solteiros. Ainda hoje, como nas histórias antigas, a “Mãe” – representante do bem- está acima de qualquer suspeita e a “Madrasta” – toda a mulher que não é a mãe – é suspeita de tudo.

É possível uma mulher amar um filho que não gerou, assim como é possível não gostar de uma criança que saiu de sua barriga. É também possível a mesma mulher amar seus filhos e seus enteados. O que não deveria ser mais possível, em pleno século XXI, é o pernicioso endeusamento da Mãe- que serve a diversos propósitos, inclusive de mercado- em detrimento de uma visão mais madura acerca das mulheres, como seres humanos complexos.

Não se pode chegar à idade adulta e ainda pensar que a única mulher boa o suficiente para ser “Mãe” é uma mãe morta, seja pelo pedestal divino em que é colocada, seja pela fatalidade ou pelo apego à nossa primeira infância, mesmo depois de velhos.

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